Vermelho, Branco e Sangue Azul leva amor gay à realeza – 10/08/2023 – Ilustrada


Polêmicas sempre marcaram a trajetória dos reis e rainhas, príncipes e princesas do Reino Unido. Das mulheres decapitadas por Henrique 8° às brigas de Harry e Meghan Markle, a família real se habituou a dar as caras nos tabloides britânicos. Mas um novo terremoto, sem precedentes, vai mexer com as estruturas da corte –ao menos na ficção.

Nesta sexta-feira, estreia “Vermelho, Branco e Sangue Azul“, adaptação do best-seller de Casey McQuiston que causou furor entre adolescentes –e adultos– com suas cenas picantes entre um príncipe da Inglaterra imaginário e o filho do que seria a primeira presidente mulher dos Estados Unidos.

Desde que o livro foi publicado em 2019, fãs inundaram as redes sociais com ilustrações, contos e todo tipo de conteúdo que se aprofundava no romance que haviam lido –com uma abordagem fofa ou erótica, houve “fanfic” para todos os gostos.

O catálogo de criações de fãs só aumentou quando o Amazon Prime Video anunciou os bonitões Nicholas Galitzine e Taylor Zakhar Perez como os protagonistas da adaptação cinematográfica. Impedidos de falar sobre o filme por causa da greve de atores em Hollywood, os dois fizeram questão de instigar os ansiosos ao divulgar imagens de bastidores antes da paralisação.

Nascia, então, um sucesso juvenil antes mesmo do lançamento do longa, ancorado nas vendas do livro, no charme de seus príncipes e, claro, na linha tênue entre doçura e picância que movimenta o relacionamento dos protagonistas –dentro ou fora das cobertas.

Parte indissociável do livro, o sexo não podia desaparecer da adaptação. Talvez por isso o projeto tenha caído nas mãos de Matthew López, dramaturgo que faz sua estreia na direção de um filme depois de ser aclamado na Broadway pela peça “A Herança”, em cartaz em São Paulo, que discute amor e sexo gay com uma cota razoável de nudez e erotismo.

“Eu sempre disse que eu precisava explorar meu trauma enquanto homem gay em ‘A Herança’”, diz López. “Agora que eu fiz isso, eu posso experimentar a felicidade enquanto homem gay, e essa felicidade é o que ‘Vermelho, Branco e Sangue Azul’ representa.”

Num caminho um tanto paradoxal, López decidiu cortar cenas mais explícitas que existiam nas páginas e dosar o tempo que o príncipe Henry e o primeiro-filho Alex Claremont-Diaz passam na cama –ou em estábulos e sobre mobília palaciana. O livro é bem criativo, aliás.

Dessa forma, “Vermelho, Branco e Sangue Azul”, o filme, pende mais para o lado fofo do romance do que para o quente. Não espere ver a infame passagem da lubrificação por cusparada ganhar vida nas telas, nem mesmo o estranhamente sexy jogo de poder entre inglês e americano, colonizador e colonizado, quando Henry e Alex versam sobre quem fará qual papel na relação sexual.

“A linha entre o necessário e o desnecessário diz respeito a quanto aquilo ajuda a entender os personagens, enquanto indivíduos e casal. As pessoas têm acesso a sexo na internet, de formas muito mais explícitas do que eu jamais poderia filmar. Esse não era o propósito do filme, e acredito que do livro também não. O propósito é fazer o espectador ou leitor entender a conexão dos protagonistas”, diz López.

Ele lembra a mais quente das cenas que gravou, que remete àquela de “Rocketman“, que causou furor por ser a primeira representação do sexo gay num grande filme de estúdio americano.

Na passagem, Alex escala lentamente o corpo nu de Henry sobre a cama. Sem que seus olhares penetrantes se percam um do outro, o americano encaixa o quadril entre as pernas elevadas do príncipe, que geme num misto de incômodo e prazer até ceder aos espasmos que fazem ferver seu sangue azul.

Para ele, era importante que o espectador estivesse colado aos rostos dos protagonistas para naturalizar a avalanche de sentimentos e sensações que os tomam.

Há mesmo um salto tremendo entre a peça “A Herança”, de uma crueza e desinibição notáveis, e o longa “Vermelho, Branco e Sangue Azul”, que imagina um conto de fadas para adultos, com direito a príncipe e tudo, mas totalmente queer.

Além disso, no livro e no filme os Estados Unidos têm uma mulher como presidente, e o Reino Unido, uma mulher negra como primeira-ministra. Os latinos, como Alex, têm ampla presença na política americana, e a Casa Branca é muito menos hostil a minorias que aquela ocupada por Trump no ano em que a obra foi publicada.

Não que a história não atravesse seus obstáculos. O drama que move a história está justamente na impossibilidade de Alex e Henry levarem seu romance a público e na homofobia que sabem que vão enfrentar –seja entre os tradicionalistas ferrenhos que formam a Coroa britânica ou entre o eleitorado conservador que ameaça a reeleição da presidente vivida por Uma Thurman.

“Acho que parte do sucesso da história é um desejo forte de viver numa realidade onde isso tudo seja permitido”, diz López. “O filme é puro entretenimento, mas quanto mais vermos esse tipo de coisa, mais normal essa realidade fica.”



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